domingo, 13 de abril de 2025

A aproximação franco-italiana

Durante o período entre a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) estabeleceram-se tratados ou simples acordos entre as potências europeias e não europeias. Ao eclodir a guerra, em 1914, toda a nossa atenção é encaminhada para dois blocos: a Tríplice Aliança, formada pela Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, e a Tríplice Entente, formada pela França, Reino Unido e Rússia. Ao identificarmos estas potências com os blocos em que estavam inseridas, esquecemos frequentemente que existiam laços comerciais entre elas, por vezes intensos. Assim, existiam laços comerciais entre a França e a Alemanha, entre esta e o Reino Unido, entre a Áustria-Hungria e a Rússia. Um exemplo: em França, na área da indústria química, estavam instaladas nove fábricas de corantes artificiais, mas cinco eram alemãs e uma suíça. As potências dos blocos antagónicos também desenvolveram relações para além da área económica. As relações entre a França e a Itália são disso um bom exemplo.



A Tunísia situa-se entre a Argélia e a Líbia e estende-se para sul penetrando no Saara. Tratava-se de um Estado tributário do Império Otomano desde o reinado de Suleiman II (1520-1566). Não tinha, então, uma existência geográfica bem definida. Entre a Tunísia e a Argélia não existem fronteiras naturais e, por isso, os respetivos territórios não estavam claramente delimitados. A Tunísia do final do século XIX tinha cerca de um milhão de habitantes que, na maioria, eram agricultores e pastores nómadas. A sua capital, Tunes, contava com cerca de cem mil habitantes. Viviam ali numerosos franceses, britânicos e italianos. Os britânicos tinham interesses comerciais superiores aos dos franceses. A colónia italiana era a mais numerosa. No entanto, o principal credor dos avultados empréstimos que a Tunísia tinha feito na Europa era a França.


Em 1881, perante a incapacidade do governo tunisino pagar as suas dívidas, a França ocupou a Tunísia. Durante o Congresso de Berlim de 1878, britânicos e alemães tinham concordado em deixar aos franceses o controlo da Tunísia. A França tinha interesse em controlar este território não apenas para assegurar o pagamento da dívida, mas, principalmente, para bloquear a expansão italiana no Norte de África e para manter a segurança da fronteira oriental da Argélia, conquistada pela França em 1830. Para os italianos, a Tunísia era uma posição estratégica importante. Era um vértice do triângulo formado também por Malta e pela Sicília que dominava o acesso ao Mediterrâneo Oriental. Malta estava em poder dos britânicos que também tinham na Tunísia interesses económicos. A 24 de abril de 1881, 35.000 soldados franceses atravessaram a fronteira a partir da Argélia, a 12 de maio encontravam-se em Tunes e impuseram ao Bei da Tunísia a assinatura de um tratado que colocava o controlo dos assuntos diplomáticos, militares e financeiros nas mãos dos franceses. Este tratado ficou conhecido como Tratado do Bardo, nome do palácio do bei. A 22 de maio de 1881, este tratado foi ratificado no Parlamento francês por 431 votos a favor e 1 voto contra. 


Em 1883, a Tunísia passou a ser oficialmente um protetorado da França. Neste ano, a 8 de junho, foi assinada Convenção de La Marsa (nome de uma cidade na Tunísia). De acordo com esta convenção, o Bei conservava a sua posição, mas o governo francês nomeava um governador que se tornava o verdadeiro governante da Tunísia. Os Franceses introduziram no território o seu sistema legal e monetário. Foi estabelecida uma união entre as alfândegas francesa e tunisina. Os Franceses passaram a deter o monopólio das plantações de tabaco. Foi autorizada a fixação de imigrantes franceses e italianos, mas, ao contrário do que sucedia na Argélia, onde os colonos franceses receberam gratuitamente terras, na Tunísia estas teriam de ser compradas.


A invasão da Tunísia pelas tropas francesas em 1881 e o protetorado depois estabelecido em prejuízo dos italianos, foram causas determinantes, embora não únicas, da adesão da Itália à Tríplice Aliança no ano seguinte. Daí para a frente, o relacionamento entre a Itália e a França foi marcado pela desconfiança. Os italianos viam nos franceses uma ameaça à unidade italiana sob a forma de apoio à reconquista do poder temporal do Papa. Uma ameaça externa, mesmo que extremamente remota, era um facto a ser explorado para mobilizar as diferentes forças italianas e evitar a desagregação. Esta mobilização da opinião pública conduziu a cerca de quinze anos de relações tumultuosas entre a França e a Itália. Esta iniciou, em 1887, uma guerra alfandegária que acabaria por lhe trazer mais prejuízo que à sua rival, a França. Entretanto, no plano imperialista, a Itália virou-se para a África Oriental. Em dezembro de 1882, apoderou-se de Assab e ocupou uma parte da Etritreia onde estabeleceu uma colónia. A capital da Eritreia, Massaua, só foi conquistada pelos italianos a 6 de fevereiro de 1885.


A 30 de setembro de 1896, a França e a Itália assinaram uma convenção relativa a Tunes. Esta convenção teve a iniciativa francesa, a quem convinha a segurança na fronteira com a Itália. Nos termos da convenção, a Itália reconhecia o protetorado francês sobre a Tunísia e, em troca, obtinha algumas vantagens económicas. Era reconhecido um estatuto privilegiado para os italianos ali residentes que podiam, inclusive, manter as suas próprias escolas. Estava dado um passou importante para a normalização das relações entre os dois países.


A revolução industrial começou na Itália na década de 1880. A unificação política permitiu a congregação de esforços, mas, desde 1878, foi favorecida por um sistema de proteção alfandegária. À semelhança do que já tinha acontecido nos EUA, onde fora adotada a “Tarifa Morrill” a 2 de março de 1861, os países europeus adotaram, desde 1878, um sistema de tributação das importações sobre os produtos agrícolas e industriais. Apenas o Reino Unido se manteve fiel ao sistema de comércio livre. Estas taxas destinavam-se a proteger as novas indústrias perante a concorrência de outras mais fortes, especialmente a indústria britânica. Estes procedimentos foram também uma forma de responder à chamada “Grande Depressão”, crise económica de longa duração, iniciada em 1873 e que se prolongou até ao início da década de 1890. A competição comercial entre alguns Estados originou guerras alfandegárias, entre elas a guerra das tarifas entre a França e a Itália.


Estas guerras de tarifas acabaram, a prazo, por prejudicar o desenvolvimento industrial e agrícola. Foram os homens de negócios italianos que pressionaram o seu governo no sentido de resolver o diferendo com a França. Existiam grupos que se mostravam receosos da aproximação com a França. Era o caso dos agricultores do Sul de Itália, com uma produção mais pobre, e os industriais do Norte, especialmente os metalúrgicos da Lombardia. No entanto, o governo italiano, com necessidade de contrair empréstimos, optou por dar mais um passo na aproximação à França. No dia 26 de novembro de 1898, a Itália e a França assinaram um tratado comercial que pôs fim à guerra das tarifas entre os dois países.


O próximo passo de aproximação entre França e Itália tem como cenário, mais uma vez, o Norte de África. Marrocos foi conquistado pelos árabes no século VII. Fez parte e teve um papel importante no mundo árabe. A expansão do Império Otomano chegou à Argélia, mas Marrocos manteve a sua independência. Em 1830, a França estabeleceu-se na Argélia, território vizinho de Marrocos. A ausência de uma fronteira bem delimitada facilitou a penetração francesa. A economia de Marrocos assentava na agricultura e era uma economia tradicional, fechada, mas ao longo do século XIX, foi criando laços com o exterior. Estabeleceram-se consulados das potências interessadas e, ao longo da sua costa atlântica, construíram-se algumas infraestruturas portuárias. Com esta abertura ao exterior, a balança comercial de Marrocos rapidamente se tornou negativa, apesar de não movimentar grandes valores comerciais. A sua dimensão político-estratégica era muito mais importante porque dava acesso ao Mediterrâneo. Este facto não deixava indiferentes os outros dois países que dominavam O Estreito de Gibraltar, a Espanha e o Reino Unido.


Marrocos, à semelhança de muitos outros Estados da região, tinha uma administração deficiente e a sua modernização encontrava a oposição das elites locais. Marrocos acabou por se tornar uma região instável, em permanente desordem, o que constituiu um convite à intervenção das potências europeias no sentido de protegerem os seus investimentos. Nesta base, as potências exigiram garantias que se traduziram em concessões económicas. Para além da Espanha e do Reino Unido, também a França, a Alemanha e a Itália tinham os seus interesses a defender na região. Esta situação criou zonas de atrito entre as potências que, em algumas ocasiões estiveram quase a dar origem a um conflito na Europa, como foi, por exemplo, a crise de Marrocos de 1905-1906, e acabaram por determinar o controlo político e financeiro de Marrocos por parte da França (1906). Ao longo deste processo a França teve de garantir o apoio das outras potências, nomeadamente da Itália que não tinha grandes interesses em Marrocos, mas que, após a questão da Tunísia, não estava na disposição de facilitar o avanço francês sem receber compensações.


A Itália tinha formado a colónia da Eritreia e, em 1895, lançou-se na conquista da Abissínia (Etiópia) mas, no ano seguinte, a 1 de março, sofreu uma pesada derrota perante o exército abissínio, na Batalha de Adowa. Na época contemporânea, esta foi a primeira batalha em que um exército africano derrotou um exército europeu. Noutras épocas, já tinha acontecido, como foi, por exemplo, o caso da Batalha de Alcácer Quibir (4 de agosto de 1578). No dia 26 de outubro de 1895, foi assinado o Tratado de Addis Abeba segundo o qual a Itália reconhecia a independência da Abissínia. A Itália decidiu, então, rever a sua política colonial e canalizou o esforço para as regiões da Tripolitana e Cirenaica (atual Líbia). Para prevenir desentendimentos ou até uma intervenção da França, a Itália deu um passo importante: se a França aceitasse a expansão italiana na “Líbia”, a Itália não colocaria nenhum entrave à expansão francesa em Marrocos. Os Franceses aceitaram o acordo. Aliás, fizeram um acordo semelhante com o Reino Unido que não desejava mais que o acesso à costa marroquina, especialmente a parte que se encontrava voltada para Gibraltar, que se encontrava sob domínio espanhol. No dia 14 de dezembro de 1900, a Itália e a França assinaram um acordo secreto nos termos do qual a Itália dava toda a liberdade aos franceses para se expandirem em Marrocos e a França apoiava a expansão italiana nos territórios que hoje conhecemos como Líbia.


Apesar destes acordos, entre a França e a Itália persistia a questão do alinhamento desta última num sistema de alianças que, em caso de guerra, constituía o bloco antagónico daquele em que a França se encontrava. Perante as potências da Tríplice Aliança, a França tinha fronteira com a Alemanha, na Alsácia-Lorena, e com a Itália, na cordilheira dos Alpes Marítimos. Isto significava que, em caso de guerra com a Alemanha, a França tinha de dispensar parte das suas forças para a fronteira com a Itália. Sendo assim, era do interesse francês atrair a Itália para o seu lado, ou seja, fazê-la sair da Tríplice Aliança.


A aproximação que já se tinha verificado entre os dois países causou inquietação nas potências centrais. A Áustria inquietava-se porque a aproximação franco-italiana não passava despercebida ao povo italiano, no seio do qual crescia o espírito irredentista, especialmente no que respeitava às regiões do Tentrino e de Venezia Giulia, regiões de língua italiana integradas no Império Austro-Húngaro. Se, em caso de guerra, a Itália abandonasse a Tríplice Aliança e decidisse lutar por essas regiões, então a Áustria-Hungria teria de lutar em duas frentes, contra os italianos e contra os russos. O governo alemão mostrava-se menos preocupado com a atual atitude italiana, mas o seu Chefe do Estado-Maior General, Alfred von Schlieffen, afirmava que a Alemanha iria ter de enfrentar todo o exército francês e não iria contar com a Itália. Isto significava que a França não teria de enfrentar as forças armadas italianas que, embora não fossem muito numerosas, em 1900 somavam 255.000 homens e, em 1914, atingiram o efetivo de 345.000.


Na realidade, a adesão da Itália à Tríplice Aliança, isto é, a um bloco em que se encontrava a potência ocupante dos territórios irredentos, só podia ser considerada uma aliança contranatura. Os diplomatas de ambos os países, França e Itália, trabalharam para consolidarem a aproximação que tinha sido feita em proveito mútuo. No dia 10 de julho de 1902, os dois países assinaram um acordo secreto no qual se estabelecia a neutralidade da Itália no caso de uma guerra franco-alemã, mesmo que a iniciativa da guerra partisse da França perante uma provocação da Alemanha. Dado que à Itália não convinha abandonar a Tríplice Aliança, este acordo tomou a forma de troca de cartas entre ministérios de ambos os países. O secretismo do acordo limitava-se ao conteúdo dos documentos, pois não era possível ocultar uma aproximação cada vez maior entre as duas potências. Em abril de 1903, o rei Vittorio Emanuele III de Itália fez uma visita a Paris retribuída em abril de 1904 pelo presidente Émile François Loubet. Como afirmou Pierre Milza, «embora em 1902 a Tríplice (Aliança) continue a existir, na prática, parece já estar condenada.» No início da guerra, em 1914, a Itália declarou a neutralidade.




 

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